Consulte: OLIVEIRA, Iranilson Buriti de. Artes de curar e modos de viver na geografia do cangaço. História, Ciências, Saúde – Manguinhos, Rio de Janeiro, v.18, n.3, jul.-set. 2011.
O artigo, “Artes de curar e modos de viver na geografia do cangaço”, de autoria de Iranilson Buriti de Oliveira, traz como temporalidade, os fins do século XIX e início do XX, na região do Brasil que hoje conhecemos como Nordeste. Em meio a isso, ele apresenta a figura do cangaceiro, como foco da discussão, mas não aquele do lugar marxista, onde o cangaceiro é apresentado como herói ou bandido, e sim do lugar de um historiador da terceira margem “fruto das atividades de purificação, de racionalização, de construção humana e social de objetos e de sujeitos como entidades separadas que vêm se encontrar, se misturar no fluxo, no turbilhonar das ações e práticas humanas” (Albuquerque Júnior, 2007, p.26). Sendo assim, o cangaceiro tratado, é aquele que não permanece passivo diante dos mandos dos ricos, aquele que é marcado por peixeiras, por cactos, xiquexiques, macambiras, enfim, um corpo marcado para a morte, mas que usa de conhecimentos populares, como mezinhas, benzeduras, chás, infusões, lambedores, dentre outros para permanecer na vida.
Assim, o autor analisa a saúde e a doença dentro da realidade do cangaceiro, nos apresentando, então, esses mestres e artesãos de táticas de sobrevivência, que dialogam entre magia e medicina, entre religião e feitiçaria, entre esculápio, Jesus Cristo, etc. O que importa para o autor, é investigar a sabedoria popular, o saber ilegítimo para os médicos, o conhecimento que faz do cangaceiro uma vida possuidora de outras práticas de viver, de burlar códigos médicos, de driblar situações de desespero diante da dor e perante a morte. E aqui temos como analisou Maria Isaura Pereira de Queiros (1991, cf. Lucena, Gouveia Júnior, 2001, p.4), o cangaceiro que na dor também recorre a magia e superstições, amuletos e rezas fortes, servindo-se algumas vezes de rezadeiras, beatos e fanáticos para ajudarem no ato de curar.
E então observamos como a simples presença de Maria Bonita, no grupo de Lampião, aquela que foi provavelmente a primeira mulher no a fazer parte de um grupo de cangaceiros, já incorpora ao grupo uma serie de novas questões como a menstruação, a gestação e o parto, além da possibilidade de outras mulheres poderem estar, também, presentes no grupo. Continuando nessa temática da gestação, observamos como, era enorme a mortalidade de mães e ou filhos, assistência. Outro aspecto que se pode perceber é como as circunstâncias, muitas vezes definiam como os cangaceiros se alimentavam, pois nas perseguições, tendiam a se alimentarem as pressas e sem nenhuma higiene, enquanto que em momentos de calma podiam ter uma alimentação bem mais calma e farta.
Após observar estes e outros aspectos do cotidiano dos cangaceiros, como a doença mais temida dentre os cangaceiros, que foi o tétano, o autor percebe como essas táticas de homens e mulheres mostra como o cangaço tem outras histórias, outras memórias, outras linguagens e subjetividades. Como lhes foi possível construir táticas de viver para não morrer. E “Tem até arte de couro e retalho/ Pra enfeitar os cabras nesse méi de mundo”, valendo-nos da canção de Cabroeira, enfeitar com a cura, pode-se dizer..
Para saber mais sobre o cangaço veja as composições abaixo:
O que diria a filha do rei do Cangaço, Lampião, sobre o seu pai? Confira

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