domingo, 16 de outubro de 2011

Amélias na cidade/ Amélias na vida.







À época do Brasil primeira república dois espaços, dentre vários outros, disputaram lugar, o cabaré e o lar. O primeiro era o ambiente da libertinagem, do sujo, do contagioso, do libidinoso, de tudo aquilo que deve-se evitar. O segundo é o cenário do harmonioso, do limpo, da felicidade, da família, do progresso. Cenário onde a mulher e a criança parecem ser os grandes protagonistas. Quando as cortinas da história se abrem eles entram no palco. Primeiro Ato: A esposa-dona-de-casa-mãe-de-família educa o reizinho da família.

Há um modelo imaginário de família criado pela sociedade burguesa. Hábitos moralizados. Nada de práticas promíscuas favorecendo um certo perigo à população. Costumes regrados está na ordem do dia. Nas fábricas o operário era “adestrado” no novo modelo de organização familiar que se estendia para o espaço fabril. O modelo de fábrica satânica, importado da Londres dos oitocentos não era mais bem vindo. O espaço de produção é a Grande Família alusivo aos processos de domesticação da família operária onde, por exemplo, a saúde no trabalho deve ser de fundamental importância, caso contrário mexe com a produção.
As transformações no comportamento feminino se fazia presente na família, como já dito. Esta mulher, que numa distinção de classe estaria mais para a classe média e classe média alta, zelava a casa, cumpria, na maioria das vezes, as ordens dos maridos e nutria uma preocupação toda especial com a infância, a riqueza da nação. Isto é, a mulher seria um relógio na captura de horários dos membros da família, se ater a todos os pequenos fatos do dia-a-dia, atentar com afinco aos sinais de doenças. Frente a tal noção, a mulher passa a não ter uma função intelectual, profissional e especialmente política. Ela só existe quando garante a existência dos filhos. Esta valorização atribuída a mulher foi fruto da atribuição, por parte do poder médico, de construí-la enquanto a “guardiã do lar” por causa da missão sagrada da amamentação, uma vocação natural. O espçao do trabalho poderia ser o palco do desvio. Todavia, ante várias privações, várias vozes levantara-se defendendo os direitos da mulher, persuadindo-a de sua autonomia tomando por pressupostos: direitor ao amor livre, igualdade de direito entre os sexos, maternidade voluntária, liberdade. Direito a novos hábitos, novas práticas. As mulheres brasileiras passam a fumar, costume herdado da dos salões parisieneses em especial.
A abnegada, a mulher-passividade, a submissa, a sombra do homem passam a ser rótulos aos quais mulheres se revoltam. Pretende a emancipação da mulher de todas as classes sociais. O modelo de mulher esposa-dona-de-casa-mãe-de-família passa a ter um oposto, a figura feminina marcada pela luta de transformação da vida cotidiana. Emerge também uma educação que se oporia as classes dominates, bem como ao poder da igreja e do estado. Vide, por exemplo, um discurso da primeira concluinte de uma turma do Curso Comercial do Colégio de Nossa Senhora das Neve no qual ressalta-se “um novo horizonte aberto às conquistas da mulher” por isso “a missão da mulher não devia está descrita somente ao lar ou ao professorado”. Percebe-se a existência de uma profissionalização para a mulher no campo da escola além de sua função materna.
A cidade que muda ressignificando aquilo que já existia e assistindo a novas subjetividades. Para muitas delas, motivo de conquistas e lutas por direitos. Para os mais conservadores da cidade a ameaça deste sexo. Elas não são mais iguais, possuem sonhos, desejos, vontades próprios e particulares em meio a imposição do masculino receosos com a família, com os laços matrimoninais, com o futuro da nação, com os bons costumes.  Se houve um nova era isso se deu por um novo modelo de mulher que conquistava uns e desencantava outros, alguns destes mergulhados numa nostalgia das mulheres que “tudo o que você vê, você quer/ Ai, meu deus, que saudade da Amélia (...) Amélia não tinha a menos vaidade/ Amélia é que era mulher de verdade”, parafraseando a letra de Ataulfo Alves.

Consulte: Rago, Luzia Margareth. Do cabaré ao lar: a utopia da cidade disciplinar (1989-1930). São Paulo: Paz e Terra, 1985.





 Caso você tenha interesse em imagens na história nçao deixe de acessar e se divertir em:
Para os interessados em estudar mais o assunto veja o livro História do Amor no Brasil da historiadora Mary del Priore. Disponível em:
ou ainda História das Crianças no Brasil da mesma autora

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